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Proteção urgente: casos de abuso e exploração sexual de menores crescem dentro e fora do ambiente digital

Publicada em: 28/05/2025 12:42 - Entrevistas

Psicóloga reforça o papel da família, escola e autoridades no combate a práticas que tem afetado crianças e adolescentes ao redor do mundo


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Mudanças de comportamento são um alerta para o que pode estar acontecendo com a criança ou o adolescente. (Foto: Shutterstock)

Casos de abuso sexual contra crianças e de adolescentes têm crescido a cada ano, assim como as denúncias. Em uma lista que apresenta os 60 países que mais combatem a exploração e o abuso sexual infantil, divulgada em 2022 pela Out of the Shadows (Fora das Sombras), o Brasil figura em 11º lugar; o Peru, em 46º; e a Argentina, em 50º. Para chegar a esses dados, a divisão de pesquisas da The Economist analisou diversos pontos, como leis e serviços governamentais. 

As ações de proteção à criança e ao adolescente vão muito além de leis e projetos. O Google tem desativado contas digitais devido ao conteúdo remeter à exploração sexual infantil. Nestas ações, o Brasil está entre os 10 países com mais contas fechadas. 

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Leiliane Rocha, psicóloga e especialista na proteção de crianças e adolescentes, concedeu a entrevista a seguir e destacou pontos importantes de alerta sobre o tema de abuso. 

Com o número de denúncias cada vez maior, podemos associar isso a um aumento significativo dos casos ou a uma maior conscientização da população? 

Não temos como responder com toda certeza se há mais denúncias ou mais casos. Não tenho dúvidas de que o nível de conscientização é maior do que há uma década, por exemplo, embora ainda estejamos muito longe de um ideal. Este aumento de informação eleva o número de notificações, uma vez que apresentar a importância da denúncia é um dos objetivos da conscientização sobre o tema. 

Por outro lado, de acordo com os estudos e a prática, posso dizer que os abusos podem também estar aumentado, pois com a popularização da internet na infância e adolescência, sem os devidos cuidados por parte dos adultos, os jogos online, redes sociais, consumo exacerbado de pornografia, vão colocando as vítimas em maior risco de abuso online e presencial. Além disso, estes conteúdos contribuem para a formação de novos abusadores. 

Quais são os fatores que podem contribuir para o aumento de casos de exploração sexual? Por exemplo, no Chile, entre 2022 e 2023, houve um aumento de 29% de vítimas. 

A exploração sexual é caracterizada pela mercantilização, ou seja, a vítima é submetida à relação sexual para ganhos financeiros de terceiros. Há casos em que o pagamento é feito diretamente para as vítimas ou estas recebem algum presente ou favor dos exploradores.  

O tráfico de pessoas para fins sexuais e a produção de vídeos e imagens de abuso sexual para serem comercializadas também são enquadrados como exploração sexual de crianças e adolescentes. 

As causas são várias. Entre elas estão a pobreza, a exclusão, desigualdade social, discriminação racial, de gênero e etnia, erotização infantil, machismo. Também é perceptível que a falta de políticas públicas de combate e o mapeamento dos principais pontos de exploração sexual contribuem para essa realidade. A falta de conhecimento e informação favorecem consideravelmente esse tipo de violência sexual de crianças e adolescentes.  

Qual a importância da educação sexual nas escolas? Isso poderia reduzir os casos de abuso? Por exemplo, na Argentina, a retirada dos conteúdos educativos sobre abuso sexual infantil gerou debates. 

Mais de 70% dos casos de abuso notificados acontecem dentro da casa da criança. Assim, é imprescindível que a escola ofereça educação sexual, tanto para ensiná-las sobre autoproteção, como para contribuir para o desenvolvimento saudável das crianças e adolescentes. Quando a escola faz a sua parte, a criança a percebe como um lugar seguro para relatar qualquer violência.  

As famílias têm muita dificuldade sobre como falar desta temática. Diante disso, a escola pode auxiliar e informar os pais sobre como podem oferecer educação sexual em casa. Para muitas crianças, a escola é a única esperança de proteção. Vale enfatizar que a educação sexual saudável considera o desenvolvimento físico, cognitivo, psicológico, emocional e sexual da criança. E, em todo projeto de educação sexual, escola e família devem andar de mãos dadas. 

Agora, no meio digital, como impedir o aumento de casos de abuso? Quais medidas podem ser adotadas para proteger crianças e adolescentes? 

Em um novo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU), publicado em 2024, foi revelado o número assustador de cerca de 300 milhões de crianças afetadas pela exploração sexual e abuso infantil online no mundo, em apenas um ano. Todo cuidado é necessário, pois os crimes sexuais contra crianças e adolescentes crescem a números assustadores no ambiente virtual. 

As famílias precisam de preparo para saberem lidar com os perigos da internet. É fundamental que os pais supervisionem o acesso dos filhos, utilizem aplicativos de controle parental, dialoguem com eles sobre uso responsável da internet e estabeleçam limites claros.  

Para isso, é importante que estudem minimamente sobre configurações, conteúdos e jogos antes de permitirem o uso. E, acima de tudo, desenvolvam um relacionamento de conexão afetiva, com tempo de qualidade e quantidade. 

Mas essa não é uma tarefa só da família. Escola, igreja, mídia e toda a sociedade devem entender que a família sozinha não vai conseguir proteger a criança e o adolescente, pois eles podem sofrer essa violência com acessos em outros lugares, como entre amigos, familiares etc. 

Inclusive, como a maior parte dos casos de abuso ocorre dentro de casa, como a psicologia e a fé podem trabalhar e ajudar a reconstruir a confiança e os vínculos afetivos das vítimas? 

É fundamental que as vítimas recebam acompanhamento psicológico, pois o abuso sexual pode trazer consequências em todas as áreas da vida, impactando negativamente o desenvolvimento saudável de crianças e adolescentes.  

Essas consequências podem variar entre: ansiedade, depressão, percepção distorcida/negativa de si, estresse pós-traumático, dificuldades de crescer profissionalmente, maior probabilidade de entrar em relacionamentos abusivos na adolescência e fase adulta, até ideação e tentativa de suicídio. 

A psicoterapia com profissional da psicologia é um importante tratamento para ajudar a vítima a lidar com o trauma, podendo processar a experiência traumática, como também oferecer apoio para a vítima ir superando as dores e complexidades decorrentes do abuso sofrido.  

O psicólogo também irá orientar a família sobre como deve agir no cotidiano com a vítima, pois muitas famílias, mesmo sem intenção, agravam os traumas com falas e ações inadequadas. 

Não tenho dúvidas de que a fé também exerce um papel importante na superação de traumas, no reencontro com a nossa real identidade, na esperança do recomeço. A fé pode ser crucial para as vítimas e suas famílias. Porém, muitas famílias, erroneamente usam a fé para pressionar as vítimas impondo um perdão imediato, principalmente quando o abusador faz parte da família. Isso dificulta a ressignificação do trauma e é mais uma forma de violência. 

Se a fé é usada na sua essência, ajuda sim no processo de reestruturação. 

Qual mensagem você gostaria de deixar para os pais de crianças e adolescentes? E, também, para as vítimas de abuso sexual? 

Pais, busquem conhecimento, pois sem informação não existe proteção. O conhecimento em educação sexual e prevenção ao abuso não só protege, mas também é basal para a formação da sexualidade, identidade e personalidade de crianças e adolescentes. 

Estudem, conversem com seus filhos, supervisionem o uso da internet, sejam mais presentes, olhem nos olhos deles, escutem o que têm a dizer. Muitas crianças e adolescentes gostariam de contar mais aos pais o que acontece com eles, mas não encontram momento, intimidade ou espaço para isso. O relacionamento afetuoso, com diálogo aberto é uma forma de proteção. 

Se você foi vítima de abuso, saiba que ele não te define. Você é muito mais do que ele. Você merece buscar ajuda, se tratar e viver melhor. Este é o desejo de Deus para sua vida. E Ele está contigo por onde quer que você andar. 

Confira aqui as referências utilizadas na entrevista.


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