Há alguns anos, ouvi uma história sobre uma Comissão de Nomeações em uma determinada sede administrativa da Igreja. Discutia-se o perfil de um pastor para uma nova função. Então, um ancião da igreja tomou a palavra e disse com convicção:
— Esse pastor poderia assumir sem nenhum problema a tarefa de cuidar de outros pastores.
O presidente da Comissão perguntou:
— E por que o senhor pensa isso, irmão?
O ancião respondeu com simplicidade:
— Porque ele é um pastor de pátio de igreja.
Todos se olharam intrigados. O presidente, curioso, quis saber o que significava aquela expressão. O irmão sorriu e explicou:
— O pastor é daqueles que ficam no pátio depois do culto, conversando com os irmãos, ouvindo, rindo com as crianças, fazendo parte do cotidiano. Ele não apenas prega do púlpito: também prega com a sua presença.
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Essa simples frase — pastor de pátio de igreja — resume uma verdade profunda: o ministério se concretiza por meio dos relacionamentos. O próprio Jesus mostrou isso ao caminhar com Seus discípulos. Ele não se relacionou com eles em salas fechadas, mas no caminho, em casa, à mesa e à beira do lago. A partir desse modelo de Cristo, gostaria de destacar cinco elementos que surgem de Sua atitude pastoral e que contribuem para estabelecer relacionamentos saudáveis e construtivos.
- Jesus ouvia com empatia. Ele não se impunha; acolhia perguntas sinceras e até confusas. No caminho de Emaús, antes de ensinar, perguntou: “Que coisas?” (Lucas 24:19). Ouvir foi Sua maneira de abrir o coração do outro. O pastor que ouve com atenção dá espaço para que o coração dos irmãos se expresse. Uma igreja que se sente ouvida confia; e onde há confiança, há comunhão.
- Jesus ensinava com paciência. Repetia lições, respondia dúvidas e respeitava o tempo de cada discípulo. Em João 14–16 vemos o Mestre preparando com ternura Seus amigos para Sua partida. A paciência de Jesus é um espelho para o pastor que ensina, confiando que o crescimento espiritual de cada membro é diferente e tem seu tempo. Essa atitude paciente constrói pontes duradouras.
- Jesus corrigia com ternura. Quando Pedro O negou, Ele não o humilhou; apenas olhou para ele (Lucas 22:61). Aquele olhar compassivo quebrou o coração e lhe deu uma luz de esperança. A correção pastoral, quando nasce de um coração compassivo, não fere: reconcilia. Uma igreja corrigida com ternura cresce em maturidade. Ellen G. White nos lembra: “Praticai uma paciente ternura para com as faltas dos outros. Cristo não veio para ser servido, mas para servir; e quando Seu amor reina no coração, seguiremos Seu exemplo”
(Ministério Pastoral, p. 111; 5 de março de 1885). [1]
- Jesus compartilhava a vida. Ele não apenas dirigia: convivia. Comeu com eles, caminhou com eles, orou com eles. “Já não vos chamarei servos... mas tenho-vos chamado amigos” (João 15:15). A amizade com Cristo foi Seu método de discipulado. O pastor que compartilha a vida encarna o evangelho no cotidiano.
- Por fim, Jesus praticava a tolerância como elemento essencial do bom relacionamento. “Necessitamos de tolerância mútua. Devemos amar-nos e respeitar-nos uns aos outros, apesar das faltas e imperfeições que não podemos deixar de ver, pois este é o espírito de Cristo. Devem ser cultivadas a humildade e a desconfiança de si mesmo, e uma paciente ternura para com as faltas dos outros. Isso acabará com todo egoísmo mesquinho e nos tornará grandes de coração e generosos” (Ministério Pastoral, p. 111, 5 de março de 1885). [2]
Construir bons relacionamentos com a igreja não é opcional no ministério: é fundamental. Relações saudáveis trazem paz ao coração, maturidade ao caráter e alegria ao serviço. A autoridade espiritual não se impõe: conquista-se amando.
Que neste Dia do Pastor lembremos que o maior legado de um servo de Deus é refletir Seu caráter. E essa será a maior evidência do cumprimento de nossa missão de fazer discípulos até que Cristo volte: “Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (João 13:35).
Carlos Gill é licenciado e mestre em Teologia. Atualmente é diretor do Ministério da Saúde e da Associação Ministerial da sede sul-americana adventista.
Referências:
[1] e [2] Associação Ministerial da Associação Geral dos Adventistas do Sétimo Dia, Ministério Pastoral (Silver Spring, MD: Associação Ministerial, 1995), ©1995.

